
A LATAM anunciou uma atualização relevante em seus canais digitais: a possibilidade de pesquisar e emitir passagens com múltiplos destinos nacionais em uma única reserva. O recurso permite combinar até quatro trechos dentro do Brasil, dando ao passageiro liberdade para montar sua própria conexão ou estruturar um itinerário em open jaw (quando o retorno ocorre por uma cidade diferente daquela utilizada no trecho de ida). Por ora, a funcionalidade está restrita a voos domésticos operados pela própria companhia e não contempla emissões com milhas ou milhas mais dinheiro.
Trata-se de um movimento estratégico bem-vindo. Ao internalizar essa capacidade de busca em seu próprio motor de reservas, a LATAM reduz a dependência de agências e ferramentas de terceiros para um tipo de compra que, historicamente, exigia conhecimento técnico do passageiro. É um ganho direto de experiência do usuário e, potencialmente, de conversão e ticket médio — já que itinerários mais completos tendem a gerar reservas de maior valor.
Como funciona o Multidestino da LATAM?
O Multidestino da LATAM permite que o passageiro monte uma viagem com até quatro trechos domésticos diferentes dentro da mesma reserva. Na prática, em vez de fazer uma busca tradicional de ida e volta, é possível informar cada etapa da viagem, escolhendo a origem, o destino e a data de cada voo.
Por exemplo: São Paulo → Recife → Salvador → Brasília → São Paulo. O passageiro pode permanecer alguns dias em cada cidade e continuar a viagem no trecho seguinte, sem precisar retornar à cidade de origem entre as etapas.
A ferramenta também pode ser interessante para quem deseja fazer um roteiro open jaw, chegando por uma cidade e retornando por outra. Por exemplo: São Paulo → Fortaleza e, alguns dias depois, Recife → São Paulo.
Neste primeiro momento, o recurso é exclusivo para voos domésticos da LATAM e está disponível para compras em dinheiro, não sendo possível utilizá-lo para emissões com pontos ou milhas. A proposta é facilitar a montagem de roteiros com várias cidades brasileiras em uma única compra, dando mais flexibilidade ao planejamento da viagem.
O padrão já consolidado no mercado internacional
Vista sob a ótica da distribuição aérea global, a novidade da LATAM aproxima a companhia de um patamar que grandes grupos internacionais já operam como padrão há anos. Nos Estados Unidos, United, Delta e American Airlines oferecem a opção de busca “multi-city” diretamente em seus motores próprios, sem necessidade de recorrer a agências externas, sendo um recurso tratado como item básico de distribuição, não como diferencial competitivo pontual.
Um degrau acima estão os programas de stopover estruturados, que transformam a conexão em parte deliberada da experiência de viagem. A Icelandair mantém desde a década de 1960 um programa que permite ao passageiro permanecer até sete dias na Islândia sem custo adicional de tarifa. A TAP Air Portugal segue lógica semelhante com Lisboa e Porto, oferecendo até dez dias de estadia gratuita no meio do trajeto entre as Américas e a Europa. A Turkish Airlines vai além, associando a parada em Istambul a hospedagem gratuita conforme a classe tarifária. Emirates, Qatar Airways, Etihad Airways e Singapore Airlines adotam abordagens equivalentes em seus respectivos hubs, todas com um objetivo comercial claro: converter o tempo de conexão em geração de demanda para a cidade-sede e em maior percepção de valor para o passageiro.
No topo dessa hierarquia estão as tarifas Round the World (RTW) da Star Alliance — aliança da qual a própria Varig foi uma das companhias fundadoras em 1997, que permitem a construção de itinerários com múltiplas companhias-parceiras ao redor do planeta, respeitando regras específicas de direção de viagem e cruzamento de oceanos.
Nesse contexto, o multidestino da LATAM representa a companhia elevando sua régua de distribuição a um padrão já testado e validado internacionalmente — com espaço evidente para evolução futura em direção a voos internacionais e à integração com o programa de fidelidade.
Uma relação de longa data entre a aviação brasileira e o conceito de múltiplos destinos
A ideia de reunir diversas cidades em um único bilhete não é estranha à aviação brasileira — pelo contrário, acompanha a trajetória do setor desde seus primórdios de longo curso, ainda que sob outra arquitetura operacional.
A Varig, desde o final da década de 1960, nutria a ambição declarada de operar uma rota de circunavegação nos moldes da Pan Am. A inauguração do voo para Tóquio, em 1968, já refletia essa visão: a rota partia do Rio de Janeiro com escalas em Lima, Los Angeles e Honolulu, todas dentro de um único bilhete de longo curso. Um capítulo ainda mais emblemático pertence à Real — companhia posteriormente incorporada à Varig, que na década de 1960 operou uma linha para o Japão com um itinerário notável: Rio de Janeiro, Brasília, Manaus, Bogotá, Cidade do México, Los Angeles, Honolulu, Wake Island e, finalmente, Tóquio. Não se tratava de um multidestino no sentido moderno, configurável pelo passageiro, mas sim de um itinerário fixo — ainda assim, um retrato eloquente de como a lógica de “uma jornada, diversas paradas” já fazia parte da engenharia de rotas brasileira muito antes da era digital.
Nos anos 1990, a Varig repetiu esse padrão de complexidade operacional com sua rota mais longa: Rio de Janeiro–Hong Kong, inaugurada em 1993, com escalas em Guarulhos, Joanesburgo e Bangcoc até o histórico aeroporto de Kai Tak. No mesmo período, o corredor Brasil–Japão chegou a ser operado simultaneamente por Varig, Vasp e Japan Airlines, com a TransBrasil atuando como elo doméstico entre Guarulhos e o Galeão para conexão com os voos da JAL — um exemplo de como companhias brasileiras já articulavam cadeias de trechos interligados décadas atrás.
A prática manual que antecede a ferramenta
Vale destacar que, mesmo antes da formalização desse recurso pela LATAM, viajantes mais experientes e agências especializadas já construíam itinerários equivalentes de forma manual, utilizando plataformas de agências de viagens online, o próprio Google Flights e, em alguns casos, programas de milhas. A lógica é conhecida no mercado: ao pesquisar pela opção de “múltiplos destinos” ou “várias cidades”, em vez de ida e volta simples, é possível estruturar um roteiro com paradas intermediárias e comparar o valor total ao de uma passagem direta. Quando a tarifa se mantém equivalente — o que costuma ocorrer quando a mesma classe tarifária está disponível em todos os trechos, o passageiro obtém, na prática, um stopover sem custo adicional, dentro das regras estabelecidas pela própria companhia.
Esse conhecimento, até então concentrado entre especialistas e agências, é exatamente o tipo de vantagem que ferramentas nativas como a da LATAM têm o potencial de democratizar — ampliando o acesso a um recurso que, até pouco tempo, dependia de know-how técnico para ser bem aproveitado.
Conclusão
O lançamento do multidestino pela LATAM deve ser lido como um avanço consistente na modernização de sua distribuição direta, alinhando a companhia a práticas já consolidadas por grandes grupos aéreos internacionais e por alianças como a Star Alliance. Mais do que uma novidade isolada, o recurso dialoga com uma trajetória histórica da própria aviação brasileira, que desde os anos 1960 já lidava com a lógica de itinerários compostos por múltiplas cidades — ainda que sob uma arquitetura operacional bastante distinta da atual.
As limitações presentes — escopo doméstico, teto de quatro trechos e ausência de integração com milhas — são naturais em uma primeira fase de um recurso desse porte, e abrem uma agenda de evolução clara para os próximos passos: expansão para a malha internacional e integração com o programa de fidelidade. Se esses passos forem dados, a LATAM estará posicionada para competir diretamente com o padrão oferecido pelas principais companhias e alianças do mundo — e para consolidar, também no mercado doméstico brasileiro, uma cultura de viagem que trata o itinerário como experiência, e não apenas como deslocamento entre dois pontos.
Quer acompanhar mais conteúdos como esse, gratuitamente?
Temos um grupo exclusivo e gratuito no WhatsApp onde compartilhamos diariamente notícias, promoções e análises estratégicas do setor aéreo.
Para entrar, basta clicar aqui.
Também estamos nas redes sociais com conteúdo aprofundado e atualizações constantes:
- Instagram: clique aqui
- YouTube: clique aqui

