
O MileagePlus da United, no Brasil, passará por uma reformulação importante a partir de abril de 2026, marcando uma mudança estrutural na forma como a companhia remunera a fidelidade de seus clientes. A United Airlines decidiu reduzir a taxa base de acúmulo de milhas em voos próprios e, simultaneamente, confirmou o lançamento de um cartão de crédito co-branded no mercado brasileiro. Essa combinação não é coincidência: ela revela um redirecionamento claro do modelo de geração de valor dentro do programa.
A alteração não representa apenas um corte numérico na pontuação. Na prática, trata-se de uma reconfiguração da lógica de fidelização, que passa a priorizar o relacionamento financeiro contínuo em detrimento do simples ato de voar. Esse movimento já é observado em outros mercados globais e agora chega com força ao Brasil.
Redução no acúmulo de milhas altera a dinâmica do programa
Atualmente, membros gerais acumulam 5 milhas por dólar gasto em bilhetes elegíveis da United. A partir de 2 de abril de 2026, essa base será reduzida para 3 milhas por dólar. Embora o número pareça apenas um ajuste técnico, o impacto prático é relevante, especialmente para viajantes corporativos e passageiros frequentes que concentram despesas elevadas em passagens internacionais.
A nova estrutura de acúmulo funcionará da seguinte maneira para quem não possuir o cartão co-branded: membros gerais receberão 3 milhas por dólar; Premier Silver acumularão 5; Premier Gold, 6; Premier Platinum, 7; e Premier 1K, 9 milhas por dólar gasto. Já para quem possuir o cartão vinculado ao programa, o cenário muda significativamente: membros gerais passarão a acumular 6 milhas por dólar, enquanto as categorias Premier poderão alcançar até 12 milhas por dólar no topo da hierarquia.
Na prática, a redução da base só é neutralizada para quem aderir ao produto financeiro. O corte inicial, portanto, funciona como mecanismo de transição para incentivar a contratação do cartão.
Tarifas Basic Economy deixam de ser neutras na equação de milhas
Outro ponto central da mudança envolve as passagens Basic Economy. A partir da nova política, membros que não possuírem cartão elegível deixarão de acumular milhas nessa categoria tarifária. Mesmo clientes com status Premier terão geração inferior em comparação com tarifas mais altas. Esse ajuste amplia a diferença entre quem mantém relacionamento bancário com a companhia e quem apenas compra passagens.
Historicamente, programas de fidelidade premiavam qualquer bilhete elegível, ainda que em proporção reduzida. Agora, o MileagePlus no Brasil cria uma distinção estrutural clara entre passageiro ocasional e cliente financeiramente vinculado ao ecossistema da marca.
Cartão United no Brasil passa a ser peça central da estratégia
A confirmação do lançamento de um cartão de crédito United no Brasil é o eixo que conecta todas as mudanças anunciadas. Embora a companhia ainda não tenha divulgado oficialmente o emissor ou os detalhes completos do produto, já antecipou benefícios relevantes. O cartão adicionará 3 milhas por dólar sobre a nova base reduzida em voos elegíveis, o que praticamente recompõe o patamar anterior de acúmulo.
Além disso, o cartão oferecerá descontos permanentes em resgates de passagens award da United Airlines. Portadores terão abatimento mínimo de 10% nas emissões com milhas, enquanto membros Premier com cartão poderão obter redução de 15%. Essa política “always-on” representa uma tentativa clara de aumentar a percepção de valor contínuo do produto.
Para ilustrar o impacto, um bilhete que custaria 15.000 milhas poderá ser emitido por 13.500 milhas para portadores. Já uma emissão em cabine Polaris Business originalmente precificada em 200.000 milhas poderá cair para 170.000 milhas para clientes Premier com cartão. A combinação entre desconto e maior eficiência de acúmulo reforça o papel estratégico do produto financeiro.
Acesso ampliado a inventário Saver fortalece o argumento comercial
Outro diferencial relevante anunciado envolve a ampliação do acesso a assentos Saver Award, categoria que representa as tarifas mais baixas dentro do sistema dinâmico de resgates da United. Portadores do cartão e membros Premier terão acesso ampliado a esse inventário, inclusive na cabine Polaris.
Essa medida tem dois efeitos diretos: melhora a disponibilidade percebida e reduz o custo médio das emissões em milhas. Quando combinada aos descontos permanentes, a proposta se torna mais competitiva, especialmente para passageiros que viajam regularmente para os Estados Unidos e conexões internacionais.
Mudança de paradigma no conceito de fidelidade aérea
A transformação do United MileagePlus no Brasil não é apenas operacional; ela é conceitual. Tradicionalmente, programas de milhagem recompensavam frequência de voo e volume de gastos em passagens. O novo modelo desloca o eixo da recompensa para o relacionamento financeiro contínuo.
Em vez de premiar exclusivamente quem embarca com frequência, o programa passa a privilegiar quem mantém vínculo com o cartão de crédito da marca. Essa estratégia amplia a previsibilidade de receita para a companhia e fortalece a monetização indireta do programa de fidelidade.
Embora a redução da base possa ser interpretada como negativa à primeira vista, ela funciona como etapa de transição para um modelo híbrido de fidelização, no qual voar e consumir serviços financeiros tornam-se elementos complementares.
O que esperar do cartão United no mercado brasileiro
O sucesso do cartão United no Brasil dependerá de fatores concretos: política de anuidade, critérios de isenção, bônus de adesão e benefícios adicionais como seguros, acesso a salas VIP ou prioridade de embarque. Caso o produto chegue com estrutura competitiva e acúmulo agressivo, poderá disputar espaço relevante entre viajantes internacionais.
Por outro lado, se a proposta financeira não compensar a redução aplicada na base de acúmulo, parte dos clientes poderá rever sua estratégia de concentração de voos na companhia. O equilíbrio entre corte e benefício adicional será determinante para a percepção de valor.
Conclusão: ajuste estrutural com foco em monetização sustentável
O United MileagePlus no Brasil passa por uma reformulação que vai além de números. A redução no acúmulo de milhas e o lançamento de um cartão co-branded fazem parte de uma estratégia coordenada para reposicionar o programa e torná-lo financeiramente mais sustentável.
O cliente continuará acumulando milhas ao voar, mas manter eficiência exigirá adesão ao novo produto financeiro. O modelo tradicional de fidelidade baseado exclusivamente em embarques frequentes perde protagonismo, dando lugar a um ecossistema integrado entre aviação e serviços bancários.
O mercado brasileiro entra, assim, em um novo estágio de competição entre programas internacionais. O desempenho do cartão United definirá se essa mudança será percebida como evolução estratégica ou simples redução de benefício.

