
O mercado de cartões de crédito premium pode estar prestes a passar por mais uma mudança relevante. Informações divulgadas recentemente indicam que o Santander deverá elevar de forma expressiva o gasto mínimo necessário para que clientes dos cartões Unlimited Visa e Mastercard continuem utilizando os acessos às salas VIP oferecidos pelo produto.
Caso a alteração seja oficialmente confirmada, ela começará a valer a partir de julho de 2026 e representará uma das maiores mudanças já vistas nos critérios de acesso aos lounges vinculados a cartões de crédito no Brasil.
A medida, naturalmente, gerou forte repercussão entre os clientes. Porém, quando analisamos o cenário de forma mais ampla, talvez a discussão seja muito mais profunda do que simplesmente um aumento de exigência.
O que pode mudar para os clientes Unlimited
A nova regra prevê que os portadores dos cartões Santander Unlimited mantenham um volume mínimo de R$ 30 mil em gastos acumulados nas três últimas faturas para preservar o benefício de acesso às salas VIP.
Na prática, isso representa uma média mensal de aproximadamente R$ 10 mil em consumo.
Hoje, a exigência é significativamente menor. Considerando o critério atual, a mudança representaria um aumento de aproximadamente 900% no valor mínimo necessário para manter o benefício ativo.
Além da meta de gastos, permanecem válidas outras condições normalmente exigidas pela instituição financeira, como cartão ativo, ausência de atrasos nos pagamentos e manutenção regular da conta junto ao banco.
Histórico recente de mudanças no Santander Unlimited
A possível alteração não surge de forma isolada.
Nos últimos meses, o Santander já vinha promovendo ajustes importantes em seu principal cartão de crédito voltado ao público de alta renda.
No início do ano, a instituição passou a exigir movimentação mínima para a utilização dos acessos às salas VIP, abandonando o modelo anterior que permitia o uso do benefício sem necessidade de gasto recorrente.
Pouco depois, também houve reajuste no valor da anuidade do produto, que passou de R$ 2.000 para R$ 2.200 anuais.
Agora, caso a nova política seja implementada, o banco reforça uma estratégia que vem sendo observada em diversas instituições financeiras ao redor do mundo: restringir benefícios premium para clientes que efetivamente concentram seus gastos nos cartões.
Por que os bancos estão endurecendo as regras?
A resposta passa diretamente pela explosão do mercado de milhas e cartões premium ocorrida nos últimos anos.
Durante e após a pandemia, milhões de brasileiros descobriram o universo dos programas de fidelidade. O interesse por cartões de alta renda cresceu exponencialmente e o assunto passou a dominar redes sociais, grupos de WhatsApp, canais de YouTube e perfis especializados.
Esse movimento trouxe inúmeros benefícios ao consumidor, mas também gerou distorções evidentes.
Diversos conteúdos passaram a ensinar formas de obter cartões extremamente exclusivos sem que o cliente necessariamente possuísse o perfil financeiro originalmente exigido pelos bancos.
Em muitos casos, o foco deixou de ser relacionamento bancário, patrimônio ou capacidade financeira e passou a ser apenas encontrar atalhos para conseguir o cartão.
O resultado foi previsível. Produtos que antes atendiam um público relativamente restrito passaram a ter uma base de usuários muito maior, pressionando benefícios que possuem custo elevado para as instituições financeiras.
O problema da superlotação das salas VIP
Talvez o maior reflexo dessa popularização tenha aparecido justamente nas salas VIP dos aeroportos.
Quem viaja com frequência percebeu uma transformação significativa nos últimos anos.
Ambientes que historicamente ofereciam tranquilidade, conforto e exclusividade passaram a enfrentar filas de espera, restrições de acesso e, em alguns casos, lotação máxima durante boa parte do dia.
Naturalmente, isso gerou insatisfação entre clientes que concentravam elevados volumes de gastos nos cartões e passaram a encontrar exatamente a mesma experiência de quem praticamente não utilizava o produto no dia a dia.
Para os bancos, manter esse modelo tornou-se financeiramente cada vez mais difícil.
Cada visita realizada em uma sala VIP gera custos. Quando a quantidade de acessos cresce muito além do planejado, ajustes acabam se tornando inevitáveis.
A reflexão que pouca gente quer fazer
Grande parte das críticas vistas nas redes sociais concentra-se apenas no aumento da exigência de gastos.
Mas existe uma pergunta legítima que merece ser feita.
Se o Santander Unlimited é um cartão tradicionalmente voltado para clientes de alta renda e normalmente exige comprovação financeira robusta para aprovação, é realmente absurdo esperar que o portador utilize o cartão de forma consistente?
Estamos falando de uma média de R$ 10 mil mensais para manter benefícios considerados premium.
Sob essa ótica, a exigência parece muito mais alinhada ao posicionamento do produto do que propriamente exagerada.
O que talvez tenha se tornado distorcido ao longo dos últimos anos foi a ideia de que seria possível obter um cartão de alta renda, utilizar seus benefícios mais caros e não concentrar gastos relevantes nele.
Esse modelo dificilmente se sustenta no longo prazo.
O mercado premium está voltando às origens?
O movimento observado no Santander não é isolado.
Diversos emissores vêm reduzindo acessos gratuitos, criando metas de gastos, limitando convidados e tornando mais rigorosos os critérios para manutenção de benefícios.
O objetivo é simples: direcionar as vantagens para clientes que efetivamente utilizam os produtos como principal meio de pagamento e relacionamento financeiro.
Pode não ser uma decisão popular.
Pode gerar reclamações.
Mas do ponto de vista de sustentabilidade do programa, faz sentido.
Vale a pena manter o Santander Unlimited?
A resposta depende diretamente do perfil de cada cliente.
Para quem concentra gastos elevados no cartão, utiliza benefícios de viagem com frequência e valoriza os acessos às salas VIP, o Unlimited continua sendo um dos produtos mais completos do mercado brasileiro.
Por outro lado, usuários que mantêm o cartão apenas pelos acessos ocasionais aos lounges precisarão reavaliar se o custo e as novas exigências continuam fazendo sentido dentro da sua estratégia financeira.
Conclusão
A possível elevação do gasto mínimo para acesso às salas VIP do Santander Unlimited certamente dividirá opiniões. No entanto, a discussão vai muito além de um simples aumento de exigência.
Ela reflete uma mudança de maturidade do mercado brasileiro de cartões premium. Após anos de expansão acelerada, bancos e emissores começam a buscar um equilíbrio entre exclusividade, sustentabilidade financeira e qualidade da experiência oferecida aos clientes.
A verdade é que benefícios premium têm custos premium. E, gostemos ou não, as instituições financeiras estão cada vez mais inclinadas a direcioná-los para quem efetivamente mantém relacionamento e volume de gastos compatíveis com o perfil dos produtos.
A medida pode ser impopular. Mas, sob uma análise estritamente técnica e de mercado, é difícil afirmar que ela seja irracional. Em muitos aspectos, ela apenas aproxima o cartão da proposta para a qual ele foi originalmente criado.

