
A parceria entre o Banco Santander Brasil e a American Airlines, responsável pelos cartões co-branded AAdvantage no país, já foi vista como uma das mais estratégicas do mercado de milhas. Durante anos, ela representou a principal (e praticamente única) porta de entrada para o acúmulo de milhas AAdvantage via cartão de crédito no Brasil.
Hoje, porém, o cenário é outro. A relação entre as duas empresas atravessa um período prolongado de tensão, marcado por disputa judicial, mudanças comerciais relevantes e um claro reposicionamento do produto para um público muito mais restrito. Na prática, a parceria segue ativa, mas os sinais de desgaste são cada vez mais evidentes.
Sob uma leitura de mercado, é razoável projetar que esse acordo dificilmente atravessará a próxima década sem uma ruptura ou reformulação profunda.
O processo judicial que mudou o tom da relação
O ponto de inflexão aconteceu em 2020, no auge da pandemia. O Santander Brasil moveu uma ação judicial nos Estados Unidos contra a American Airlines tentando rescindir o contrato de co-branded de 10 anos.
O argumento central era econômico e contratual. O acordo obrigava o banco a comprar um volume mínimo anual de milhas, independentemente do uso pelos clientes. Com a suspensão dos voos entre Brasil e Estados Unidos durante a pandemia, o Santander alegou que o propósito do contrato havia sido frustrado. Em outras palavras, comprava-se milhas para um mercado que, temporariamente, não existia.
O banco invocou cláusulas de força maior e sustentou que o contrato havia se tornado excessivamente oneroso. Em 2021, uma juíza federal em Nova York permitiu que o Santander prosseguisse com a ação, rejeitando a tentativa da American Airlines de encerrar o caso naquele momento.
Mesmo com a disputa em andamento, a parceria comercial continuou operando. Mas, desde então, o relacionamento entre as empresas deixou de ser apenas comercial e passou a carregar um componente jurídico e estratégico relevante.
Mudanças que desestimularam o cliente
A partir de 2024, o mercado começou a notar movimentos claros do Santander para reduzir a atratividade do cartão AAdvantage.
A isenção automática de 50% da anuidade para clientes Select deixou de ser regra e passou a exigir investimentos superiores a R$ 150 mil. O cartão também saiu de campanhas promocionais importantes do banco, como o “Bateu Ganhou”. Na prática, o produto passou a mirar um nicho de altíssima renda.
Essas mudanças não parecem casuais. Elas indicam um esforço para controlar custos e limitar o volume de milhas emitidas, algo que faz sentido diante de um contrato considerado caro e pouco flexível.
O resultado é um produto menos competitivo para o público amplo e mais direcionado a clientes de grande relacionamento bancário.
Parceria ativa, mas sob pressão
Até 2025/2026, a parceria segue oficialmente ativa e ainda é a única forma relevante de acumular milhas AAdvantage por meio de cartão de crédito no Brasil. As regras básicas de acúmulo permanecem, incluindo pontuação diferenciada em compras na American Airlines.
Porém, o contexto mudou. O produto perdeu parte do apelo massificado que já teve e hoje funciona quase como uma solução de nicho.
No mercado, persistem rumores de que o acordo poderia não ser renovado até o fim do ciclo contratual, com algumas especulações apontando para 2029 como limite máximo. Mais do que datas, o que chama atenção é o clima de desgaste contínuo.
Uma relação que parece caminhar para o fim
Parcerias co-branded de sucesso normalmente evoluem com reforço de benefícios, campanhas agressivas e integração comercial. O que se observa aqui é o inverso: restrições, judicialização e redução de incentivos.
Do ponto de vista estratégico, é difícil imaginar que duas empresas mantenham por muitos anos um acordo que já foi questionado judicialmente por uma das partes. Contratos podem obrigar a permanência formal, mas dificilmente sustentam entusiasmo comercial quando o alinhamento se perde.
Minha leitura é que, nos próximos anos (e possivelmente antes do que muitos imaginam) veremos o fim dessa parceria ou uma reformulação tão profunda que, na prática, representará um novo começo.
Experiência pessoal: quando o AAdvantage era uma joia pouco explorada no Brasil
Uso o cartão Santander American Airlines desde 2019 e, ao longo desses anos, explorei o produto de forma bastante estratégica. São sete anos aproveitando benefícios, entendendo melhor as regras do programa e transformando gastos do dia a dia em viagens que, de outra forma, custariam muito mais caro. Dentro dessa lógica, o AAdvantage sempre foi um programa que me entregou valor real.
Consegui fazer emissões bastante interessantes, especialmente em parceiros raros da Oneworld. Um exemplo marcante foi resgatar classe executiva da Royal Jordanian entre o Oriente Médio e a Europa, uma experiência que combinou excelente serviço de bordo, boa disponibilidade de assentos e custo em milhas bastante racional para o padrão de mercado. Esse tipo de resgate mostra o potencial que o programa tem quando bem utilizado.
Vale lembrar que, quando adquiri o cartão, ele era muito menos conhecido. Não era um “plástico da moda” entre milheiros e tampouco aparecia em listas de produtos desejados. A adesão era mais simples, os critérios menos rígidos e o produto circulava quase como um segredo entre quem realmente conhecia bem os programas de fidelidade internacionais.
Por isso, é importante fazer uma leitura justa do momento atual. Diferentemente de outros cartões que sofreram desgaste por uso excessivo ou popularização entre milheiros, aqui a raiz do problema é outra. As mudanças recentes não nascem de abuso de benefício ou de arbitragem de pontos, mas de uma relação comercial complexa entre banco e companhia aérea, com impactos contratuais e financeiros relevantes.
Digo isso com a tranquilidade de quem acompanhou a evolução do produto desde uma fase muito positiva. O cartão já foi extremamente competitivo e entregando experiências memoráveis – não que não seja, mas mudou. Justamente por isso, a percepção de perda de atratividade hoje fica ainda mais evidente para quem viveu o “auge” do AAdvantage no Brasil.
Conclusão
A parceria Santander & American Airlines não acabou, mas claramente já não é a mesma. O que antes era um produto aspiracional e competitivo tornou-se um cartão mais restrito, caro e seletivo.
O histórico de disputa judicial, somado ao endurecimento das regras e ao reposicionamento do produto, sugere uma relação que segue mais por obrigação contratual do que por sinergia estratégica.
No mercado de milhas, onde flexibilidade e engajamento do cliente são fundamentais, parcerias precisam de alinhamento de longo prazo. Quando isso se perde, o fim pode não ser imediato — mas tende a ser apenas uma questão de tempo.

