
O mercado de milhas no Brasil atravessa um processo silencioso de deterioração, impulsionado menos por fatores econômicos e mais por um fenômeno de comunicação mal conduzida. O que antes exigia conhecimento técnico, leitura de regras tarifárias, entendimento de alianças e experiência prática acumulada ao longo de anos, foi substituído por narrativas rasas, embaladas como “conteúdo educativo”, mas que na essência apenas simplificam o complexo e distorcem o que deveria ser tratado com responsabilidade.
Há uma proliferação evidente de perfis que se autointitulam especialistas sem qualquer lastro real. São criadores que descobriram no tema uma oportunidade de audiência e monetização, não uma área de domínio. Muitos não possuem histórico consistente de viagens relevantes, não compreendem a lógica estrutural dos programas de fidelidade e, ainda assim, se colocam na posição de quem ensina. O resultado inevitável é a formação de uma base de seguidores mal informada, condicionada a buscar atalhos em vez de entender o sistema.
Quando a ignorância é vendida como estratégia
O problema ganha contornos mais graves quando a desinformação deixa de ser apenas superficial e passa a incentivar comportamentos claramente abusivos. Para se ter ideia, já foram observadas práticas divulgadas em conteúdos digitais que sugerem o acesso a salas VIP por meio da emissão de passagens reembolsáveis, com cancelamento posterior após a utilização do benefício.
Na prática, esse tipo de estratégia pode ser interpretado como exploração de brechas operacionais, em desalinhamento com o princípio de boa-fé que sustenta programas de fidelidade. Não há propriamente sofisticação técnica envolvida, mas sim uma lógica oportunista
E o ponto central não é o ato isolado, mas a sua normalização. Quando esse comportamento é amplificado por influenciadores, ele deixa de ser algo pontual e pode passar a ser replicado em escala. É nesse momento que o dano deixa de ser pequeno e se torna sistêmico.
Influência sem repertório e sem responsabilidade
Existe uma diferença fundamental entre autoridade e popularidade. Autoridade se constrói com repertório, vivência e consistência. Popularidade, especialmente nas redes sociais, pode ser fabricada com narrativa, estética e repetição.
O que se observa hoje no segmento de milhas é a substituição da primeira pela segunda.
Esses novos “especialistas” operam com um discurso simplificado, quase sempre baseado em promessas implícitas de vantagem constante. Evitam deliberadamente qualquer aprofundamento técnico, porque a complexidade reduz engajamento. Preferem transformar exceções em regra, casos isolados em método e brechas em estratégia.
Ao fazer isso, não apenas deseducam o público, mas criam uma expectativa completamente desalinhada com a realidade dos programas. Vendem a ideia de que sempre há um “jeito” de ganhar do sistema, quando, na prática, o sistema sempre reage.
Balcões de milhas e a lógica da distorção estruturada
Dentro desse contexto, os chamados balcões de milhas se tornaram a face mais organizada dessa distorção. Sob o pretexto de intermediação, criaram um modelo que transforma milhas em ativo financeiro informal, desconectado da sua finalidade original.
Essas operações estimulam a emissão recorrente para terceiros, pressionam a disponibilidade de assentos prêmio e contribuem diretamente para a inflação dos resgates. Mais do que isso, institucionalizam uma prática que, em muitos casos, contraria de forma explícita os termos dos programas.
O problema não está apenas na existência desses balcões, mas na legitimação que recebem de influenciadores que, por conveniência ou desconhecimento, os promovem como solução inteligente. Não é. É um vetor de desequilíbrio.
A distorção da venda de milhas e seus efeitos reais
A venda de milhas, quando extrapola limites razoáveis, altera profundamente o comportamento do usuário e a dinâmica do programa. O que deveria ser um instrumento de fidelização passa a ser tratado como instrumento de especulação.
Esse desvio de finalidade tem consequências claras. Programas endurecem regras, aumentam controles e, inevitavelmente, reduzem o valor percebido. O ciclo é conhecido e já foi observado diversas vezes em diferentes mercados.
No Fórum Panrotas 2022, Jerome Cadier sintetizou esse processo ao classificar essas práticas como um “câncer” para a aviação. A metáfora é precisa porque descreve um problema que se expande de forma progressiva, comprometendo estruturas que, à primeira vista, parecem saudáveis.
O contraste com mercados mais maduros
Enquanto o Brasil ainda opera sob uma lógica permissiva, alguns programas internacionais já adotaram medidas objetivas para conter abusos. A Qatar Airways, ao limitar emissões para terceiros no Privilege Club, não apenas restringiu uma prática problemática, mas sinalizou claramente qual comportamento é aceitável.
Esse tipo de situação, não exige inovação complexa. Exige decisão firme.
E, sobretudo, exige a compreensão de que preservar valor de longo prazo é mais importante do que tolerar distorções de curto prazo.
O custo da conivência
A tolerância com práticas abusivas, amplificadas por influenciadores despreparados, tem um custo que não aparece imediatamente, mas se materializa de forma inevitável. Programas se tornam menos generosos, mais restritivos e progressivamente menos atrativos.
O usuário legítimo, que compreende regras e utiliza o sistema de forma correta, passa a encontrar mais barreiras, menos disponibilidade e menor retorno. Em outras palavras, paga pela irresponsabilidade alheia.
Conclusão
O mercado de milhas no Brasil não sofre por falta de oportunidades, mas por excesso de distorções legitimadas por uma camada de influência sem preparo e sem compromisso com o longo prazo.
Há um descompasso evidente entre o discurso de democratização do acesso e a prática de incentivo a comportamentos que fragilizam o sistema. E esse descompasso está sendo alimentado por quem deveria atuar como filtro, não como amplificador de ruído.
Se existe interesse real em preservar o valor dos programas, será necessário ir além do ajuste pontual. Isso passa por endurecimento consistente de regras, limitação clara de práticas abusivas e implementação de mecanismos simples que eliminem brechas exploradas de forma recorrente, especialmente na emissão para terceiros e na venda irregular de milhas.
Sem esse movimento, o cenário tende a se agravar.
E, como sempre, quem joga corretamente continuará sendo o mais prejudicado.

