
O segmento de cartões de ultra alta renda no Brasil entrou em um novo ciclo de ajustes. O Bradesco Visa Aeternum, um dos produtos mais exclusivos do país, terá sua política internacional de acesso a salas VIP modificada a partir de 20 de março de 2026.
A mudança é objetiva: o programa LoungeKey deixará de integrar o pacote de benefícios do cartão. O acesso internacional ficará concentrado no Visa Airport Companion, enquanto as salas próprias e parcerias nacionais seguem ativas.
Não se trata da retirada do benefício. Trata-se de uma reestruturação estratégica.
Essa distinção é essencial para compreender o impacto real da decisão.
O que muda na prática para o cliente Aeternum?
Até 19 de março de 2026, o uso do LoungeKey permanece válido dentro das regras atuais. Após essa data, eventuais entradas por esse programa poderão gerar cobrança ao titular.
A partir de então, a estrutura passa a operar da seguinte forma:
Acesso internacional
O Visa Airport Companion torna-se o único canal habilitado para acesso às salas VIP fora do Brasil.
Salas próprias e parcerias no Brasil
O cartão mantém acesso às seguintes estruturas:
- Bradesco Cartões Lounge
- Sala VIP Club BSB
- Ambaar Lounge
- Espaços Advantage VIP Plus+
- Dragon Pass
Portanto, o benefício continua robusto. O que desaparece é a sobreposição de programas globais.
Perfil estratégico do Bradesco Visa Aeternum
O Aeternum não é — e nunca foi — um cartão concebido para escala. Sua proposta nasce da segmentação. Trata-se de um produto estruturado para um público específico: clientes com elevado volume de investimentos, relacionamento financeiro consistente e alta geração de receita para o banco.
A lógica por trás do Aeternum é de exclusividade sustentável, não de captação em massa. O acesso ao produto está vinculado à profundidade do vínculo com a instituição, e não apenas à renda declarada. É um cartão que funciona como extensão de um relacionamento patrimonial consolidado.
Essa distinção é central para compreender seu posicionamento. Não se trata de um instrumento de status amplamente distribuído, mas de uma peça estratégica dentro de um ecossistema de alta renda.
Principais características do produto
Pontuação: 4 pontos por dólar gasto
Programa de recompensas: Livelo
Validade dos pontos: indeterminada
Anuidade: R$ 1.920
Isenção: clientes com investimentos superiores a R$ 5 milhões
Disponibilidade: exclusiva para correntistas
Estamos falando de um cartão posicionado no topo da pirâmide de renda, não de um produto promocional.
Essa diferença importa quando analisamos a decisão do banco.
Por que os bancos estão revendo acessos ilimitados?
Nos últimos anos, o mercado de milhas e cartões premium sofreu uma transformação acelerada. A disseminação de conteúdo sobre pontos e benefícios ampliou o acesso à informação — o que é positivo. No entanto, também trouxe distorções relevantes.
Benefícios pensados para um perfil restrito passaram a ser utilizados com intensidade muito superior à prevista nos modelos de custo das operadoras.
Quando o volume de uso cresce além do equilíbrio financeiro projetado, duas alternativas surgem: elevar exigências ou reduzir parcerias.
A segunda opção costuma ser a mais rápida.
O efeito da popularização desordenada do mercado de milhas
Existe um fator estrutural que não pode ser ignorado.
A expansão acelerada de conteúdos sobre milhas e cartões premium — muitas vezes produzidos sem base técnica, sem leitura de balanços ou compreensão de modelagem de custos — ajudou a criar uma cultura de uso orientada à exploração máxima do benefício, e não à sustentabilidade do produto.
Popularizaram-se abordagens que ensinam como “forçar” elegibilidade, como ampliar convidados sem critério, como extrair o máximo de acessos ilimitados e como tensionar políticas de relacionamento. O discurso deixa de ser sobre adequação de perfil e passa a ser sobre engenharia de aproveitamento.
O efeito econômico é previsível. Quando o padrão de uso deixa de ser estatisticamente controlado, o custo variável explode. Emissores passam a renegociar contratos com operadoras de lounges, recalcular subsídios e revisar benefícios. O sistema premium depende de previsibilidade atuarial; sem ela, a equação se rompe.
E quando a correção chega, ela não é seletiva. Ajustes contratuais atingem toda a base — inclusive os clientes que sempre utilizaram o benefício dentro da lógica para a qual ele foi concebido.
A sobrecarga das salas VIP e a resposta das instituições
A experiência em salas VIP sofreu deterioração perceptível nos últimos anos. Filas recorrentes, ambientes operando no limite da capacidade e restrições emergenciais de acesso passaram a fazer parte da rotina em aeroportos estratégicos. O que antes era sinônimo de fluidez e exclusividade tornou-se, em muitos casos, um espaço pressionado pela demanda.
Essa sobrecarga não ocorre por acaso. Ela é consequência direta da expansão de acessos ilimitados associada a um incentivo implícito de uso frequente, independentemente da real necessidade. Quando o benefício deixa de ser ocasional e passa a ser explorado de forma sistemática, a infraestrutura física não acompanha o crescimento na mesma velocidade.
Do ponto de vista financeiro, o modelo também sofre. Bancos não operam benefícios premium como subsídios ilimitados. Cada entrada em lounge possui custo contratual. Quando a curva de utilização supera as projeções atuariais, o impacto no resultado é imediato e relevante.
Nesse contexto, revisar parcerias e recalibrar estruturas não é um gesto arbitrário. É uma medida de controle para restabelecer equilíbrio operacional e previsibilidade financeira dentro do sistema.
O impacto real para o portador do Aeternum
Para o cliente que efetivamente se enquadra no perfil do cartão, a mudança é mais técnica do que perceptível na prática. Não se trata de um corte estrutural de benefício, mas de um ajuste na arquitetura do programa.
O Visa Airport Companion permanece como base da cobertura internacional, garantindo acesso a uma rede ampla e distribuída globalmente. Em termos práticos, o viajante continua amparado nos principais hubs e aeroportos relevantes para rotas corporativas e de lazer premium. A funcionalidade permanece, assim como a previsibilidade de uso.
As salas próprias do banco seguem operacionais e representam um ativo estratégico que vai além do simples acesso. São ambientes onde a instituição controla padrão, experiência e narrativa de marca. Esse pilar preserva diferenciação competitiva e mantém o posicionamento do cartão no segmento de alta renda.
No mercado doméstico, as parcerias nacionais continuam ativas, sustentando o uso recorrente do benefício em aeroportos de grande circulação. Para uma parcela relevante dos clientes, é justamente nesse contexto que o lounge é mais utilizado, o que reduz ainda mais qualquer impacto real da mudança.
O que deixa de existir é a redundância entre dois programas globais que, em grande medida, entregavam acesso aos mesmos espaços físicos. Havia sobreposição contratual e custo duplicado para um benefício que se interceptava.
Sob uma leitura estratégica, o banco simplifica sua estrutura, reduz camadas desnecessárias e preserva a espinha dorsal da proposta de valor. É um movimento de racionalização, não de enfraquecimento. Para o cliente aderente ao produto, a experiência essencial permanece íntegra — o que muda é a engenharia financeira por trás dela.
Estamos diante de uma tendência no segmento premium?
A resposta, sob uma ótica técnica, é sim.
O mercado de alta renda passa por um processo claro de recalibração. Instituições financeiras estão revisando estruturas de benefícios, sobretudo aqueles associados a acesso ilimitado e custo variável. O crescimento acelerado da base elegível pressionou contratos, elevou despesas operacionais e distorceu a equação original de rentabilidade.
Cartões ultra premium não foram concebidos para escala massificada. Foram estruturados sobre uma base reduzida, altamente qualificada e com padrão de uso previsível. O modelo pressupõe frequência controlada, ticket médio elevado e relacionamento financeiro profundo.
Quando essa lógica se amplia além do desenho original, o sistema perde equilíbrio. A correção, nesse contexto, não é excepcional — é parte do ciclo natural de ajuste do mercado.
Conclusão: maturidade ou retração?
A retirada do LoungeKey do Bradesco Visa Aeternum não deve ser lida como um evento isolado, mas como sintoma de um ciclo mais amplo de racionalização no mercado de cartões de alta renda. O setor passa por um momento de ajuste fino: menos redundância contratual, mais controle de custo e maior disciplina na engenharia de benefícios.
O núcleo da proposta permanece preservado. O acesso internacional continua estruturado, as salas próprias seguem como ativo estratégico e a experiência premium não foi desmantelada. O que mudou foi a arquitetura por trás da entrega — agora mais enxuta, mais previsível e alinhada à sustentabilidade financeira do produto.
Ecossistemas premium não sobrevivem apenas de marketing, dependem de equilíbrio atuarial e uso compatível com o desenho original. Quando atalhos substituem estratégia e a maximização imediata ignora o custo sistêmico, a correção deixa de ser hipótese e se torna inevitável.
O mercado de milhas e cartões conquistou enorme visibilidade nos últimos anos. O próximo passo não é crescer em audiência, mas amadurecer em responsabilidade. Produtos de alta renda não se sustentam na lógica da exploração contínua — sustentam-se na lógica da adequação, da previsibilidade e do relacionamento de longo prazo.

