
A internet tem uma característica curiosa: basta alguém encontrar dificuldade para conseguir determinada passagem aérea para que, em pouco tempo, aparecem conclusões definitivas sobre o fim de uma oportunidade. Foi exatamente o que aconteceu com as emissões de voos com a GOL Linhas Aéreas utilizando 7.500 milhas AAdvantage, da American Airlines.
Nos últimos dias, aparecem em mídias sociais, afirmações de que essa possibilidade teria praticamente desaparecido, acompanhadas de críticas ao programa e previsões sobre o suposto fim de uma das parcerias que ainda justificariam seu uso.
Mas será que os fatos sustentam esse diagnóstico?
A resposta é não. E, antes de transformar dificuldades pontuais de disponibilidade em um suposto encerramento de uma modalidade de resgate, é necessário entender como funciona a distribuição de assentos, quais são as limitações de uma busca e, principalmente, se essa emissão realmente representa uma boa utilização das milhas.
Há um problema ainda maior nessa discussão: muita gente está concentrando seus esforços em defender uma estratégia que, na minha avaliação, nunca foi a mais inteligente para quem utiliza programas de fidelidade de maneira estratégica.
As emissões por 7.500 milhas AAdvantage continuam existindo
Vamos começar pelo ponto central: não há fundamento para afirmar que as emissões de 7.500 milhas AAdvantage em voos da GOL foram encerradas.
Encontrar menos opções em determinadas datas, não conseguir disponibilidade em uma rota específica ou precisar pesquisar diferentes períodos não significa que o benefício tenha deixado de existir.
É importante compreender que a GOL possui uma operação de grande dimensão, com centenas de partidas diárias e uma malha que conecta diferentes regiões do Brasil e destinos internacionais. A companhia opera uma frota de aproximadamente 147 aeronaves e, considerando a média de 419 partidas diárias apresentada neste levantamento, estamos falando de algo próximo de 12.500 a 13.000 partidas mensais.
Naturalmente, isso não significa que todos esses voos disponibilizem assentos para resgate por meio de parceiros. Essa distinção é fundamental.
A quantidade de voos operados por uma companhia aérea não determina quantos lugares serão liberados para programas de fidelidade. A disponibilidade de assentos-prêmio é administrada de acordo com critérios comerciais e operacionais, podendo variar conforme o voo, a data, a procura e as condições estabelecidas entre as empresas.
Portanto, não encontrar uma passagem por 7.500 milhas em determinada pesquisa significa, jamas, concluir que todas as emissões dessa categoria desapareceram.
Uma coisa é identificar uma redução de disponibilidade. Outra é afirmar o fim de uma possibilidade de resgate sem evidências que sustentem essa conclusão.
O problema pode estar na maneira como você pesquisa
Para demonstrar que as emissões continuam disponíveis, vale sair um pouco das opiniões e olhar para exemplos concretos.
Vamos começar com uma pesquisa entre Brasília e Recife.

Ao consultar o calendário de disponibilidade do AAdvantage, encontramos opções de resgate por 7.500 milhas em determinados dias.

É verdade que, nesse exemplo, aparecem itinerários com conexão, e não necessariamente voos diretos. Entretanto, isso não invalida a emissão. O objetivo é encontrar uma alternativa que atenda à necessidade do passageiro, considerando também o tempo de viagem e a conveniência do itinerário.
Outro detalhe importante: ao avançar para o mês seguinte, aparecem novas possibilidades de resgate pelo mesmo valor.

Ou seja, uma pesquisa isolada não representa o comportamento de disponibilidade de toda a rota ao longo do ano.
Vamos ampliar o teste.
Dessa vez, a consulta é entre São Paulo e Fortaleza.

Novamente, encontramos diferentes datas com opções de emissão por 7.500 milhas AAdvantage.

Assim como no exemplo anterior, algumas alternativas envolvem conexões. Ainda assim, o valor de resgate permanece disponível em determinadas datas.
Esses exemplos demonstram justamente o que está sendo ignorado em parte das discussões: as emissões não desapareceram. É necessário pesquisar, testar datas diferentes, considerar aeroportos e avaliar também itinerários com conexão.
Uma busca que não apresenta o resultado desejado não é prova de que o resgate deixou de existir.
Aliás, esse é um dos erros mais recorrentes entre pessoas que acompanham o mercado de milhas: confundir a ausência de disponibilidade na própria pesquisa com uma mudança estrutural nas regras de um programa.
A questão mais importante: você deveria mesmo usar AAdvantage para voar dentro do Brasil?
Agora chegamos ao ponto que considero realmente relevante nessa discussão.
Há bastante tempo venho alertando que utilizar milhas AAdvantage para emitir passagens domésticas em voos da GOL, simplesmente porque existe uma tabela de resgate com valores fixos, pode representar um desperdício considerável.
E explico o motivo.
Na maioria das situações que analiso, a mesma passagem pode ser encontrada por uma quantidade menor de milhas utilizando o Smiles, programa de fidelidade da própria GOL.
Minha experiência com esse tipo de comparação indica que, em aproximadamente 90% dos casos avaliados, a emissão pelo Smiles apresenta uma relação mais interessante. Isso não é uma garantia universal, nem significa que o resultado será sempre o mesmo. É justamente por isso que a comparação precisa considerar a mesma rota, data, horário, disponibilidade e condições da passagem.
O ponto é que não faz sentido olhar exclusivamente para a quantidade de milhas exigida pelo AAdvantage e ignorar as alternativas disponíveis no mercado.
Uma emissão por 7.500 milhas pode parecer excelente quando analisada isoladamente. Entretanto, se o mesmo deslocamento estiver disponível por um custo consideravelmente menor no Smiles, a suposta oportunidade deixa de ser tão interessante.
O valor de uma emissão não está apenas na quantidade de milhas utilizada. Está na relação entre o custo do resgate, o valor dessas milhas e as alternativas que você deixou de aproveitar.
É uma análise básica de custo de oportunidade, mas que ainda passa despercebida por muita gente.
AAdvantage não é a melhor estratégia para quem concentra suas viagens no Brasil
Minha posição sobre isso é bastante clara: não considero o AAdvantage um programa prioritário para quem pretende utilizar suas milhas principalmente em viagens com origem e destino no Brasil.
Isso inclui, especialmente, quem mantém saldo no programa com o objetivo de emitir voos domésticos da GOL por 7.500 milhas.
Existem exceções? Evidentemente.
Há situações em que a disponibilidade, o preço em dinheiro, a quantidade de milhas exigida pelo Smiles e as condições específicas do itinerário podem tornar o AAdvantage competitivo.
Mas essas exceções não deveriam ser confundidas com uma estratégia geral de utilização do programa.
O cenário muda quando falamos de viagens internacionais.
Em determinadas oportunidades, o AAdvantage pode apresentar resgates bastante interessantes, especialmente em voos entre o Brasil e os Estados Unidos. Já encontrei situações em que passagens entre os dois países aparecem por valores na faixa de 12 mil a 18 mil milhas por trecho.
São oportunidades que merecem atenção, embora dependam de disponibilidade e não devam ser tratadas como tarifas garantidas ou permanentes.
Fora dessas situações específicas, é preciso avaliar com muito cuidado qualquer emissão com origem ou destino no Brasil.
A pergunta não deveria ser apenas quantas milhas você precisa para emitir. A pergunta correta é: existe alguma alternativa que entregue o mesmo resultado utilizando menos recursos?
Essa é a diferença entre simplesmente acumular milhas e saber utilizá-las.
O tamanho da malha da GOL não significa disponibilidade ilimitada
Também é importante não cair no extremo oposto.
Defender que as emissões por 7.500 milhas continuam existindo não significa dizer que elas são abundantes, fáceis de encontrar ou que estarão disponíveis em qualquer data.
A GOL pode operar milhares de voos mensalmente, mas a quantidade de assentos disponibilizados para resgate por meio do AAdvantage é uma decisão comercial e não uma consequência automática do tamanho da operação.
A disponibilidade pode ser limitada em períodos de férias, feriados, datas comemorativas e rotas com maior procura.
Além disso, quem pesquisa somente voos diretos pode deixar de encontrar alternativas que aparecem em itinerários com conexão. Da mesma maneira, limitar a busca a um único dia pode eliminar oportunidades existentes na mesma semana ou no mês seguinte.
Isso não significa que o consumidor precise aceitar qualquer itinerário ou comprometer sua viagem para conseguir economizar milhas.
Significa apenas que uma pesquisa precisa ser abrangente o suficiente para sustentar uma conclusão.
Não se pode transformar uma experiência individual de busca em uma afirmação definitiva sobre o funcionamento de uma parceria aérea.
Conclusão: o problema não é o fim das emissões, mas a estratégia de quem utiliza o programa
A discussão sobre as emissões de 7.500 milhas AAdvantage na GOL está sendo conduzida de maneira equivocada quando dificuldades de disponibilidade são apresentadas como se representassem o encerramento dessa possibilidade.
Os exemplos de Brasília a Recife e de São Paulo a Fortaleza mostram que ainda existem alternativas pelo valor anunciado, inclusive em itinerários com conexão e em diferentes datas.
Portanto, afirmar que as emissões acabaram é uma conclusão precipitada e que não corresponde às evidências disponíveis.
Mas faço uma ressalva ainda mais importante: não confundam a existência de uma emissão com a qualidade dessa emissão.
É justamente aí que está o maior equívoco de parte do mercado. Há pessoas comemorando a possibilidade de resgatar uma passagem doméstica por 7.500 milhas AAdvantage sem sequer verificar quanto custaria fazer o mesmo deslocamento utilizando o Smiles.
E isso é inverter a lógica de quem realmente entende de programas de fidelidade.
O objetivo não é simplesmente conseguir emitir uma passagem com milhas. É conseguir a melhor emissão possível, preservando o valor do patrimônio acumulado e evitando desperdiçar pontos em oportunidades que poderiam ser aproveitadas de maneira mais eficiente.
Repito: o AAdvantage pode ter boas oportunidades, especialmente em determinadas emissões internacionais. Mas não considero inteligente mantê-lo como estratégia principal para voar dentro do Brasil, muito menos acumular milhas pensando exclusivamente nos resgates domésticos de 7.500 pontos.
E, para quem anuncia o fim dessas emissões nas redes sociais, fica uma recomendação: antes de publicar uma conclusão definitiva, faça mais de uma pesquisa, explore o calendário, teste outras datas e considere diferentes possibilidades de itinerário.
No mercado de milhas, informação incompleta pode custar caro. E transformar uma dificuldade de pesquisa em uma suposta mudança de regra não ajuda o consumidor a tomar decisões melhores.
O AAdvantage não precisa ser defendido, tampouco condenado. Precisa ser utilizado com inteligência. E quem não entende a diferença entre disponibilidade, oportunidade e valor de resgate ainda está olhando para o mercado de milhas pelo ângulo errado.
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