
Se até nos Estados Unidos as passagens aéreas estão subindo, mesmo com um mercado muito mais competitivo, o que podemos esperar do Brasil?
A resposta não é animadora.
Scott Kirby, CEO da United Airlines, afirmou à Reuters que as tarifas aéreas devem continuar subindo gradualmente no primeiro semestre de 2027. O executivo ressalta que o ritmo deve ser menor do que o observado em 2026, mas a combinação de demanda forte e custos operacionais elevados continuará pressionando os preços.
E há um detalhe importante: segundo Kirby, a demanda continua extremamente forte, mesmo com as tarifas mais caras.
Nos Estados Unidos, os preços das passagens chegaram a registrar alta de 25% em julho, na comparação anual. Ainda assim, quando ajustadas pela inflação, as tarifas permanecem abaixo dos níveis pré-pandemia.
Ou seja: mesmo em um dos mercados aéreos mais competitivos do mundo, com diversas companhias disputando passageiros e uma estrutura muito maior de oferta, os preços estão subindo.
Agora imagine esse cenário no Brasil.
Aqui, o problema é ainda mais complexo.
O Brasil tem um mercado aéreo muito mais concentrado
O consumidor brasileiro conta com poucas grandes empresas para escolher seus voos. Isso significa que, quando os custos aumentam, existe menos pressão competitiva para impedir que parte desse aumento chegue ao preço final.
E companhia aérea não consegue simplesmente absorver tudo.
Combustível, aeronaves, manutenção, pessoal, aeroportos, câmbio, impostos e diversos outros custos fazem parte de uma operação extremamente complexa e de margens apertadas.
Quanto mais caro fica operar no Brasil, maior é a pressão sobre as tarifas.
E existe outro problema: entrar nesse mercado não é simples.
Uma nova companhia precisa enfrentar uma série de exigências regulatórias, tributárias e operacionais antes mesmo de transportar o primeiro passageiro. Quanto maiores forem os custos e as barreiras para competir, menor tende a ser o número de empresas dispostas a investir.
E menos concorrência significa menos opções para o consumidor.
Até os programas de fidelidade entram na mira
O problema não termina nas passagens.
Nos últimos anos, programas de fidelidade também passaram a receber cada vez mais atenção do poder público, inclusive com propostas legislativas que interferem diretamente na forma como essas empresas podem administrar seus programas.
É preciso discutir proteção ao consumidor, obviamente. Mas existe uma diferença entre garantir direitos básicos e criar uma estrutura regulatória tão pesada que aumente os custos de operação e reduza a liberdade das empresas para desenvolver seus produtos.
Isso pode produzir um efeito contrário ao desejado.
Uma regra criada para proteger o consumidor pode, dependendo de como for desenhada, aumentar custos, reduzir investimentos, desestimular novos entrantes e diminuir a concorrência.
No fim, quem paga a conta pode ser justamente o consumidor.
E a tributação torna o cenário ainda mais difícil
A aviação brasileira já convive com uma estrutura tributária complexa e com custos elevados para operar.
Quando você soma impostos, burocracia, regras trabalhistas, custos aeroportuários, combustível, câmbio e exigências regulatórias, o Brasil se torna um ambiente mais caro e complexo para uma companhia aérea.
E isso ajuda a explicar por que temos tão poucas empresas relevantes disputando o mercado doméstico.
Não é simplesmente uma questão de “as companhias aéreas cobrarem caro”.
Para existir passagem barata, é preciso existir oferta, concorrência e condições para que empresas possam operar e crescer.
Se uma empresa enfrenta custos maiores, ela precisa repassar parte deles ao preço. Se outra empresa pensa em entrar no mercado e encontra uma estrutura extremamente cara e complexa, pode simplesmente desistir do investimento.
O resultado é previsível: menos concorrência.
Se nos EUA está acontecendo, o que esperar do Brasil?
Essa talvez seja a principal reflexão.
Nos Estados Unidos, existe um mercado aéreo gigantesco, diversas companhias, enorme demanda, ampla malha aérea e muito mais escala.
Mesmo assim, o CEO de uma das maiores companhias aéreas do país já prevê novas altas nas tarifas em 2027.
Agora olhe para o Brasil: menos empresas, menor concorrência, custos elevados, tributação pesada e cada vez mais interferência regulatória.
A combinação não parece promissora.
E existe uma consequência que vai muito além da passagem aérea.
Quando viajar fica mais caro, as pessoas viajam menos. O turismo sente. Hotéis sentem. Restaurantes sentem. Eventos sentem. O transporte de cargas também é impactado.
A aviação é parte de uma enorme cadeia econômica.
Por isso, a discussão não deveria ser apenas sobre quanto custará a próxima passagem.
Deveríamos discutir também por que é tão difícil criar um ambiente no qual novas companhias possam entrar, competir e oferecer preços melhores ao consumidor brasileiro.
Porque, no final das contas, não existe milagre:
quanto menor a concorrência e maior o custo para operar, maior tende a ser a conta para quem está sentado na poltrona.
E se 2027 realmente trouxer novas pressões sobre as tarifas, talvez o brasileiro descubra que o problema não está apenas no preço do combustível ou no dólar.
Está também no custo de fazer aviação no Brasil.
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