
Os lounges de aeroportos deixaram de ser aquele espaço tranquilo onde o passageiro podia escapar do movimento dos terminais. Em muitos aeroportos, especialmente nos Estados Unidos, encontrar um lugar disponível dentro de uma sala VIP já se tornou um desafio.
Filas na entrada, ambientes cheios e dificuldade para encontrar um espaço silencioso são situações cada vez mais comuns. E o fenômeno não acontece por um único motivo.
A popularização dos cartões de crédito premium, o crescimento da procura por viagens em cabines superiores e a falta de espaço nos aeroportos estão entre os principais fatores que ajudam a explicar por que os lounges estão tão movimentados.
O acesso aos lounges aumentou — e a lotação também
Durante muito tempo, as salas VIP eram associadas principalmente aos passageiros frequentes e viajantes corporativos. Hoje, esse cenário mudou.
Programas como Priority Pass e os benefícios oferecidos por cartões de crédito premium ampliaram consideravelmente o número de pessoas que podem entrar nesses espaços.
Na prática, isso significa que o lounge passou a atender um público muito maior do que no passado.
A lotação, porém, varia bastante de acordo com o aeroporto, o tipo de sala e a forma de acesso.
Os lounges vinculados a cartões de crédito e programas como o Priority Pass, Dragon Pass e LoungeKey, costumam estar entre os mais disputados. Na sequência aparecem salas destinadas a passageiros de companhias aéreas e, geralmente, os espaços exclusivos para passageiros de classe executiva e primeira classe tendem a oferecer uma experiência mais tranquila.
Mesmo assim, não existe uma regra universal.
Enquanto alguns lounges enfrentam filas na porta, outros continuam relativamente vazios, dependendo do horário e da localização.
Por que os lounges ficaram tão cheios?
O aumento da quantidade de passageiros com acesso às salas VIP é apenas parte da explicação.
O problema também está relacionado à capacidade física dos aeroportos e à transformação do próprio mercado de viagens.
Cartões premium se tornaram muito mais populares
Uma das principais mudanças dos últimos anos foi a popularização dos cartões de crédito que oferecem acesso a salas VIP.
Esse tipo de cartão, que no passado era muito mais restrito, passou a fazer parte da estratégia de benefícios de diversas instituições financeiras.
Com isso, o acesso às salas VIP foi democratizado.
O passageiro não precisa necessariamente viajar em primeira classe ou classe executiva para entrar em determinados lounges. Dependendo do cartão, do programa ou do aeroporto, o benefício pode estar disponível mesmo quando o cliente está viajando em classe econômica.
Essa mudança aumentou consideravelmente o público potencial desses espaços.
E existe ainda um comportamento curioso: quem paga uma anuidade elevada por um cartão tende a querer aproveitar ao máximo os benefícios oferecidos.
Isso pode fazer com que alguns passageiros cheguem mais cedo ao aeroporto justamente para utilizar o lounge antes do voo.
A capacidade dos aeroportos não acompanhou a demanda
Outro problema é estrutural.
O número de passageiros aumentou significativamente ao longo dos anos, mas ampliar terminais e salas VIP não é uma tarefa simples.
Aeroportos ocupam áreas extremamente valorizadas e precisam dividir o espaço disponível entre portões de embarque, lojas, restaurantes, áreas de segurança, serviços e outras operações.
Além disso, uma expansão física pode exigir grandes investimentos e anos de planejamento.
O resultado é que, em determinados aeroportos, o número de passageiros cresceu muito mais rapidamente do que a capacidade disponível para acomodá-los.
E os lounges estão inseridos exatamente nesse cenário.
Mesmo quando companhias aéreas, bancos e operadores independentes desejam abrir espaços maiores, existe um limite físico para a expansão.
Viagens de lazer premium também estão crescendo
Existe outro fator que ajuda a explicar o movimento: o crescimento da procura por experiências premium mesmo entre passageiros que não viajam a trabalho.
O fato de as viagens corporativas ainda não terem recuperado completamente a mesma participação que tinham antes da pandemia não significa que a demanda por cabines premium tenha diminuído.
Pelo contrário.
A procura por classe executiva e outros produtos premium continua forte, impulsionada também por passageiros que priorizam experiências e viagens em vez de outros tipos de consumo.
Além disso, o chamado “bleisure”, que combina negócios e lazer na mesma viagem, ganhou espaço.
Com mais flexibilidade para trabalhar remotamente, alguns passageiros conseguem estender viagens profissionais para aproveitar alguns dias de lazer.
Isso também muda o comportamento no aeroporto.
Quem trabalha remotamente pode chegar mais cedo, entrar no lounge, utilizar o Wi-Fi e transformar a sala VIP praticamente em um escritório temporário.
Lounges também se tornaram uma fonte de receita
Existe ainda uma questão econômica por trás de toda essa transformação.
Um lounge ocupa um espaço valioso dentro de um aeroporto. E, como qualquer área comercial, precisa gerar retorno para quem o administra.
No caso de lounges independentes, por exemplo, os operadores podem receber conforme a quantidade de acessos realizados. Naturalmente, quanto maior o movimento, maior pode ser a receita.
As salas vinculadas a cartões de crédito funcionam de maneira um pouco diferente. Nesse caso, o lounge faz parte do pacote de benefícios utilizado para manter o cliente dentro do ecossistema da instituição financeira.
Já as salas exclusivas de companhias aéreas e de passageiros premium têm outra lógica, pois estão mais diretamente relacionadas ao produto oferecido pela empresa.
Mesmo assim, a expansão das cabines premium nem sempre foi acompanhada na mesma proporção pelo aumento da capacidade dos lounges.
Para as empresas, portanto, um lounge cheio pode representar um negócio funcionando bem.
Para o passageiro, porém, existe um limite.
Quando o lounge deixa de ser uma vantagem?
Essa é justamente a grande questão.
Uma sala VIP cheia pode continuar oferecendo benefícios, como comida, bebidas, Wi-Fi e um ambiente diferente do terminal.
Mas, dependendo do nível de lotação, aquilo que deveria ser um espaço de conforto pode acabar reproduzindo exatamente o problema que o passageiro tentou evitar: um ambiente barulhento, cheio e sem lugares disponíveis.
Existe uma contradição evidente.
Quanto mais pessoas valorizam o acesso ao lounge, maior é a procura. E quanto maior a procura sem um aumento proporcional da capacidade, pior pode ficar a experiência.
Ainda assim, o fato de algumas salas continuarem registrando filas mostra que, para muitos passageiros, os benefícios continuam compensando.
Nem todo lounge lotado oferece uma experiência ruim
A lotação também precisa ser analisada com algum cuidado.
Nem todo lounge cheio é necessariamente ruim.
Alguns espaços conseguem administrar melhor o fluxo de passageiros, têm ambientes maiores ou oferecem diferentes áreas para alimentação, trabalho e descanso.
Também existem lounges que continuam relativamente tranquilos, mesmo dentro de aeroportos movimentados.
Por isso, a experiência pode variar completamente de um aeroporto para outro e até mesmo dentro do mesmo aeroporto, dependendo do horário.
Como escolher quando vale a pena entrar em um lounge?
Para quem tem acesso a salas VIP, a decisão pode depender muito mais do objetivo da viagem do que simplesmente da existência do benefício.
Se a intenção é trabalhar, por exemplo, um lounge silencioso e com boa conexão à internet pode fazer bastante diferença.
Se o passageiro está apenas esperando o embarque de um voo doméstico curto, talvez o benefício não seja tão relevante.
Em algumas situações, procurar um espaço tranquilo próximo ao portão pode ser uma alternativa melhor do que atravessar o aeroporto para entrar em uma sala completamente lotada.
Isso também explica o crescimento de um modelo diferente de lounge: os espaços de atendimento rápido, conhecidos como “grab and go”.
Neles, o passageiro com acesso pode simplesmente pegar uma bebida ou um lanche e seguir para outra área do terminal.
É uma solução que atende justamente quem quer aproveitar parte do benefício sem necessariamente passar muito tempo dentro de uma sala cheia.
O futuro das salas VIP pode ser diferente
O aumento da demanda deve continuar pressionando os operadores a encontrar novas soluções.
Construir lounges cada vez maiores pode ser uma alternativa, mas não resolve sozinho o problema, especialmente em aeroportos onde o espaço físico é limitado.
Por isso, é possível que vejamos cada vez mais modelos diferentes de atendimento, maior controle de acesso, espaços menores distribuídos pelo aeroporto e opções rápidas para passageiros que não precisam permanecer horas dentro de uma sala VIP.
O desafio será encontrar um equilíbrio entre a quantidade de pessoas que têm acesso e a qualidade da experiência oferecida.
Conclusão
As salas VIP de aeroportos mudaram bastante nos últimos anos.
O que antes era um espaço relativamente exclusivo se tornou um benefício muito mais acessível, principalmente com a popularização dos cartões de crédito premium e programas de acesso como o Priority Pass.
Ao mesmo tempo, a procura por viagens premium continua forte e os aeroportos enfrentam limitações para ampliar rapidamente seus terminais e lounges.
O resultado é previsível: mais passageiros disputando praticamente o mesmo espaço.
Ainda existem salas excelentes e momentos em que o lounge continua sendo uma das melhores partes da experiência de viagem. Mas também é cada vez mais comum encontrar filas, ambientes lotados e pouco espaço para descansar.
Por isso, ter acesso a uma sala VIP não significa necessariamente que você deva utilizá-la em todas as viagens.
Antes de entrar, vale observar o horário, o nível de lotação e o que você realmente espera daquela experiência.
Em alguns casos, uma sala tranquila dentro do terminal pode oferecer exatamente aquilo que você procura: um lugar para sentar, Wi-Fi e alguns minutos de paz antes do próximo voo.
E talvez esse seja o maior paradoxo dos lounges atualmente: quanto mais democráticos eles se tornam, mais difícil pode ser encontrar dentro deles aquilo que originalmente os tornou tão desejados: tranquilidade.
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