
A avianca anunciou uma mudança relevante em seu serviço de bordo nas rotas internacionais dentro das Américas. A partir de agora, passageiros da Classe Econômica em voos com duração superior a três horas e meia passam a receber snacks e bebidas sem custo adicional, movimento que altera a lógica mais enxuta adotada nos últimos anos.
A decisão vale inclusive para as ligações com o Brasil e marca um ajuste claro na estratégia de produto para rotas de média duração.
O que muda na prática para o passageiro
Nos voos internacionais nas Américas acima de 3h30, o serviço gratuito volta a integrar a experiência da cabine Economy. A oferta varia conforme o tempo de voo.
Em trajetos entre três e quatro horas, será servido um snack acompanhado de água ou café. Já em voos superiores a quatro horas, os passageiros receberão um sanduíche, também com opção de água ou café. O cardápio pago continua disponível como complemento.
Nos voos domésticos e nos trechos internacionais mais curtos dentro da região, permanece o modelo atual, com venda a bordo. Nas operações para a Europa, o serviço gratuito já é padrão e segue sem alterações, assim como na Business Class.
Trata-se de um ajuste cirúrgico, direcionado às rotas onde a expectativa do cliente naturalmente é maior.
Movimento estratégico em um mercado competitivo
A mudança não acontece isoladamente. Ela integra um pacote mais amplo de reposicionamento.
A companhia vem ampliando a Business Class Américas para toda a malha, incluindo voos domésticos em mercados estratégicos como Colômbia, Equador e Guatemala. Também investiu em melhorias no solo, com check-in diferenciado sob a marca Insignia e modernização das salas VIP Diamond no hub de Bogotá.
No ar, a instalação gradual de Wi-Fi na frota reforça a busca por conectividade, enquanto ajustes tarifários, como a inclusão de bagagem de mão de até 10 kg na tarifa Light internacional, sinalizam tentativa de tornar o produto mais competitivo sem descaracterizar a proposta.
O cenário regional exige equilíbrio fino entre custo e percepção de valor. E é exatamente nesse ponto que a empresa parece recalibrar sua estratégia.
Minha experiência pessoal: da referência à descaracterização
Em 2024, voltei a voar na avianca depois de oito anos sem embarcar na companhia colombiana. Durante muito tempo, ela foi, para mim, uma das referências em atendimento ao cliente na América Latina.
No entanto, os dois voos que realizei — Miami–Bogotá e Bogotá–Belo Horizonte — foram decepcionantes. A experiência a bordo foi desorganizada, o serviço impessoal e a proposta de produto parecia desconectada da história da empresa.
A sensação era de uma companhia tentando competir diretamente com low costs mais agressivas no mercado colombiano, abrindo mão de diferenciais que sempre sustentaram sua reputação. Faltava identidade. Faltava clareza de posicionamento.
Para quem acompanhou a trajetória da empresa ao longo das décadas, a impressão era de uma marca tradicional tentando vestir uma roupa que não combinava com sua essência.
Retorno às origens e reconstrução de identidade
Por isso, a decisão de reincluir serviço gratuito em voos regionais de maior duração vai além de um snack ou de um sanduíche. Ela sinaliza reposicionamento.
A avianca é uma das companhias aéreas mais tradicionais do mundo, com história centenária e protagonismo na América Latina. Reduzir sua proposta a um modelo ultracompacto, sem diferenciação clara, era um risco reputacional.
O novo movimento indica tentativa de reconectar a experiência ao que o passageiro espera de uma empresa com esse legado: consistência, padrão e cuidado no atendimento.
Não se trata de abandonar eficiência. Trata-se de alinhar eficiência com identidade.
Conclusão: reposicionamento necessário para sustentar relevância
O anúncio do serviço gratuito na Economy em voos internacionais nas Américas pode parecer simples à primeira vista, mas carrega simbolismo estratégico.
Ele aponta para uma companhia que reconhece a necessidade de ajustar rota, recuperar percepção de valor e equilibrar competitividade com tradição. Em um mercado regional pressionado por margens estreitas e concorrência intensa, identidade clara é ativo estratégico.
A Avianca não precisa competir como a mais barata a qualquer custo. Precisa competir como a avianca.
Se o atual ciclo de ajustes conseguir resgatar consistência operacional, clareza de produto e excelência no atendimento, a empresa tende a recuperar a grandeza que sempre a distinguiu nos céus da América Latina.

