
Listar as melhores classes executivas do mundo parece tarefa simples, mas está longe de ser. Business class não é um produto totalmente padronizado: varia dentro da própria frota de uma companhia, muda conforme a tripulação, a rota, o horário do voo e, principalmente, conforme o que cada passageiro valoriza — seja privacidade, gastronomia, tecnologia ou hospitalidade.
Mesmo com essa variabilidade, alguns padrões ficam claros ao longo do tempo. Certas empresas conseguem entregar, de forma consistente, uma experiência premium que combina bom hard product (assento, cabine, tecnologia) e soft product (serviço, catering, amenidades).
O que trago aqui não é ranking definitivo, e sim uma opinião baseada na minha vivência em mais de 100 voos em cabines premium. É um olhar de quem observa o conjunto: do assento à refeição, do atendimento aos detalhes que fazem o passageiro se sentir bem cuidado. Não me resta dúvidas que algumas empresas que não aparecem na lista, podem ter produtos muito superiores a algumas, mas quando eu voar com elas atualizo para vocês. Resolvi citar apenas 10 (dez) para não ficar cansativo, afinal, a lista é longa. Confira mais na matéria abaixo.
Qatar Airways
A Qatar Airways se tornou referência mundial em classe executiva. A Qsuite, presente em parte dos Airbus A350 e Boeings 777, mudou o jogo ao introduzir portas, divisórias móveis e um nível de privacidade que até então era mais associado à primeira classe. Já voei diferentes produtos da companhia, e mesmo quando não é Qsuite, o padrão segue alto, inclusive nos Boeing 787 e Airbus A380.
O que realmente diferencia a Qatar é o conjunto. Catering sob demanda bem executado, amenidades de alto nível (com pijamas em várias rotas), sistema de entretenimento robusto, expansão do Wi-Fi Starlink e, em algumas rotas, até serviço de caviar. É uma experiência redonda, pensada nos detalhes. Não por acaso, a companhia já trabalha na próxima geração da Qsuite.
Meu primeiro voo com a Qatar Airways, foi em 2016 – ainda não tinha a QSuite – era a cabine que muitos passageiros reclamam atualmente, que é disposta no esquema 2-2-2, no Boeing 777-200LR. Mas anos depois fiz mais voos com a empresa aérea e voei em cabines diferentes, inclusive a própria e badalada QSuite.

Japan Airlines (JAL)
Ainda não voei no A350-1000 da JAL, mas é inegável que ele elevou o padrão da empresa. O Safran Unity é hoje um dos assentos mais espaçosos e inteligentes do mercado, com soluções tecnológicas pouco comuns, como som integrado ao encosto de cabeça.
Minha experiência foi nos 777-300ER com a Apex Suite. Apesar do layout 2-2-2, todos têm acesso direto ao corredor, o que muda completamente a percepção de conforto. É um produto que envelheceu bem.
O soft product segue a linha japonesa: serviço consistente, gastronomia cuidadosa, Wi-Fi gratuito e roupa de cama confortável. A JAL consegue equilibrar inovação com a hospitalidade tradicional do Japão de forma muito natural.

Singapore Airlines
Se alguém olhar apenas para o assento, pode achar que a Singapore Airlines não lidera o mercado. Os produtos dos A350, A380 e 777 não são os mais modernos, e as amenidades são simples, sem pijamas ou dine on demand.
Mas a Singapore Airlines joga em outro campo: consistência de serviço. A cultura de hospitalidade é real, não marketing. O atendimento é refinado, atento e genuíno. Some-se a isso o KrisWorld, Wi-Fi gratuito e o Book the Cook, que permite pré-selecionar refeições.
Voei com eles em 2018, justamente quando lançavam as cabines atuais. Naquele ano, foram eleitos a melhor companhia aérea do mundo — e fez sentido. Meu voo no A330-300 teve serviço e catering de altíssimo nível.

Thai Airways
A Thai preserva algo que poucas companhias conseguem manter ao longo do tempo: hospitalidade com identidade cultural forte. Na Royal Silk, o serviço valoriza a culinária tailandesa, a apresentação dos pratos e o cuidado no atendimento.
Já voei algumas vezes na executiva da Thai e sempre encontrei tripulações extremamente cordiais. O ponto fraco é a inconsistência do hard product, pois há cabines já defasadas. A empresa precisa acelerar retrofit e padronização de frota para competir de igual para igual na Ásia. Soft product eles já têm.

Qantas Airways
A Qantas combina eficiência com um toque de proximidade. O catering é consistente, com bons ingredientes e destaque para vinhos australianos. O serviço é profissional, sem excessos, mas atento ao conforto do passageiro.
Minha experiência foi há mais de uma década, nos saudosos 747-400. Curiosamente, os pijamas distribuídos hoje lembram bastante os daquela época. A Qantas mantém uma identidade estável: confiável, sólida e focada na experiência sem extravagância.

Air New Zealand
A Business Premier da Air New Zealand é fortemente orientada ao soft product. A gastronomia é bem trabalhada, os vinhos neozelandeses são valorizados e os menus frequentemente levam assinatura de chefs.
O layout herringbone voltado para o corredor divide opiniões. Garante acesso direto ao corredor, mas reduz a sensação de privacidade e a vista da janela. Não é o assento mais intuitivo, mas quando o assunto é serviço e catering, a companhia entrega uma experiência acima da média.
Voei com eles no ano de 2019 e apesar de ter achado estranho a disposição dos assentos – que parecia não dar muita privacidade – achei uma experiência bastante satisfatória. Contudo, por eu ser grande (tenho 1.84m), achei as laterais do assento muito estreita.

Royal Jordanian
A Crown Class da Royal Jordanian é um exemplo de como o serviço pode elevar a percepção de um produto. O assento Collins Diamond é confortável e totalmente flat, mas já representa uma geração anterior.
O destaque real está no soft product. Serviço por etapas, pratos montados no trolley diante do passageiro e atenção personalizada. Em um voo, pedi uma degustação de vinhos, gostei de um rosé jordaniano e a tripulação me presenteou com uma garrafa lacrada. São esses gestos que constroem memória de marca.

Turkish Airlines
O hard product da Turkish é inconsistente. Os 787 têm assentos apenas razoáveis e os 777 ainda operam com sete por fileira. Há exceções positivas, mas a padronização ainda é um desafio.
Por outro lado, a Turkish é possivelmente uma das melhores do mundo em catering. A comida a bordo é destaque real, a seleção de cafés é excelente e a hospitalidade costuma ser genuína. Conectar em Istambul normalmente agrega à experiência.
As rotas de 5ª liberdade na América do Sul permitem provar o serviço a custos interessantes. Mesmo em voos mais curtos, o padrão se mantém.

Emirates
A Emirates construiu um dos maiores halos de marca da aviação moderna, muito por causa do A380. O assento não é referência tecnológica e algumas cabines já mostram idade. Além disso, a escala da operação reduz a personalização.
Mas há acertos claros: o bar a bordo é icônico, as bebidas são ótimas, o sistema de entretenimento continua entre os melhores e os kits de amenidades são caprichados.
Meu primeiro A380 da Emirates foi em 2011, entre Sydney e Auckland. O bar é, sem exagero, um espetáculo à parte e parte da mística da companhia. Infelizmente algumas fotos desse voo, estão num HD no Recife – então deixarei temporariamente outra foto ilustrativa e depois atualizo.

Air France
Entre as europeias, a Air France se destaca. As novas cabines dos A350 e 777, com portas e layout reverse herringbone, colocam a companhia num patamar competitivo.
O soft product é acima da média europeia, com boa gastronomia, vinhos bem selecionados e serviço geralmente simpático. Já voei em diferentes configurações da executiva da Air France, embora ainda não na cabine mais recente, que tem recebido ótimas avaliações.

Conclusão
A classe executiva evoluiu de forma impressionante. Muitos assentos atuais superam o que era primeira classe há 15 anos. Ainda assim, não existe uma “melhor business class” universal.
Alguns priorizam privacidade, outros gastronomia, outros serviço ou conectividade. Hoje, de forma geral, Qatar Airways e Japan Airlines aparecem como referências globais, mas isso muda rápido. Novos assentos, retrofit de cabines e ajustes de serviço podem reposicionar companhias em pouco tempo.
No fim, a melhor classe executiva é aquela que entrega valor para o perfil do passageiro. E isso, quase sempre, vai muito além do assento.

