
A aviação comercial no Brasil vive um momento de virada. Depois de anos de ajustes financeiros e reorganização pós-pandemia, o setor voltou a crescer com força. O resultado mais visível dessa retomada não está apenas nos números de passageiros, mas em algo ainda mais estratégico: a disputa intensa por pilotos.
Latam, Azul e Gol estão em movimento. Contratações aceleradas, abertura de processos seletivos e busca por profissionais experientes indicam que as companhias estão se preparando para ampliar operações e renovar frotas. O cenário atual não é de crise de mão de obra, mas de competição por talentos num mercado que voltou a expandir.
A entrada dos E2 da Embraer muda o jogo
Grande parte dessa movimentação gira em torno da chegada de novos jatos Embraer E2 à frota da Latam. A companhia encomendou 24 aeronaves do modelo, com as primeiras entregas previstas a partir do fim de 2026. Para operar esses aviões, é necessário formar rapidamente um núcleo de pilotos e instrutores com experiência no equipamento.
E é justamente aí que a Azul entra no radar. Hoje, ela é a principal operadora de jatos Embraer de nova geração no Brasil e uma das maiores no mundo. Naturalmente, concentra muitos profissionais já habilitados nesse tipo de aeronave.
Isso transforma a Azul numa referência técnica e, ao mesmo tempo, numa fonte natural de recrutamento para quem está entrando nesse segmento. Trata-se menos de “perda” e mais de reconhecimento de expertise acumulada ao longo dos anos.
Incentivos elevados e mercado mais competitivo
A Latam tem adotado uma estratégia agressiva de atração de pilotos habilitados para a família Embraer. O mercado reagiu rapidamente.
Bonificações de contratação e pacotes de entrada acima do padrão histórico brasileiro sinalizam que as empresas estão dispostas a investir para garantir tripulações qualificadas.
A Gol, embora opere frota padronizada em Boeing, também acelerou contratações recentemente. Isso mostra que a disputa não é isolada, mas parte de um aquecimento geral do setor.
Quando várias empresas contratam ao mesmo tempo, o efeito é uma dança natural de cadeiras. Esse movimento é comum na aviação mundial sempre que há ciclos de crescimento.
Um mercado que voltou a crescer de verdade
Os números ajudam a explicar o contexto. O Brasil já voltou a transportar volumes de passageiros comparáveis e até superiores, ao período pré-pandemia. A demanda por voos domésticos e internacionais subiu de forma consistente ao longo de 2025.
Mais voos exigem mais aviões. Mais aviões exigem mais pilotos. E formar comandantes de linha aérea leva tempo e investimento elevado. O custo de formação pode chegar a centenas de milhares de reais, com exigências de horas de voo cada vez maiores.
Hoje, existem milhares de pilotos com licenças válidas no país, mas apenas parte atua na aviação comercial regular. A formação anual de novos profissionais não acompanha plenamente o ritmo de expansão da demanda.
Azul mantém papel central no setor
Mesmo diante do assédio de mercado, a Azul segue sendo peça-chave na aviação brasileira. A empresa construiu uma malha regional única, conectando cidades que antes tinham pouca ou nenhuma oferta aérea. Esse modelo depende fortemente de aeronaves eficientes de menor porte, exatamente o nicho onde a Azul se especializou.
Além disso, a companhia continua contratando e reforçando equipes, sinalizando confiança operacional. Empresas que não enxergam futuro não ampliam seus quados.
A reputação de bom ambiente operacional, diálogo com tripulações e foco em experiência de voo também pesa na retenção de profissionais. No longo prazo, esses fatores costumam ser tão relevantes quanto remuneração.
Pressão global por pilotos
O fenômeno não é brasileiro. A demanda mundial por pilotos deve atingir centenas de milhares de profissionais nas próximas décadas. Aposentadorias, expansão de frotas e crescimento do tráfego aéreo global pressionam o mercado de trabalho.
Países como os Estados Unidos já projetam dezenas de milhares de novas vagas por ano. Naturalmente, isso cria oportunidades internacionais para pilotos experientes, elevando ainda mais a competição por talentos.
Conclusão
A atual disputa por pilotos entre Latam, Azul e Gol é, acima de tudo, um sinal de vitalidade da aviação brasileira. O setor voltou a crescer, as companhias estão se movimentando e a conectividade aérea do país tende a se expandir.
A entrada de novos jatos, especialmente os Embraer E2, inaugura uma nova fase de competição em rotas regionais e alimentadoras de hubs. Nesse cenário, ter experiência operacional se torna um ativo valioso — e é por isso que profissionais qualificados estão no centro das atenções.
Mais do que uma guerra por pilotos, o que se vê é um mercado em transformação. E, quando a aviação cresce, quem ganha é o passageiro, com mais rotas, mais frequências e mais opções de viagem.

