
Depois de anos concentrada em operações de curta e média distância, a Gol começa a dar sinais concretos de que pretende voltar ao jogo das rotas intercontinentais. O movimento, ainda em fase estrutural, envolve pedidos de slots em Guarulhos para destinos na Europa e nos Estados Unidos a partir de 2026.
Mais do que ampliar a malha, a iniciativa aponta para um reposicionamento estratégico. Entrar em mercados de longo curso significa disputar passageiros de maior valor agregado, aumentar receitas em moeda forte e fortalecer presença global — algo que a companhia não faz em escala relevante há cerca de duas décadas.
Os destinos mapeados incluem Lisboa, Paris (Charles de Gaulle), Roma, Miami e Orlando, além de Londres, que ainda enfrenta limitações de disponibilidade de slots.
Guarulhos volta ao centro da estratégia
A escolha de Guarulhos como base dessas operações chama atenção. Embora o Galeão tenha sido tratado como principal hub internacional da Gol em outros momentos, São Paulo oferece maior densidade de demanda corporativa, conectividade e tráfego premium.
Na prática, operar a partir de GRU coloca a companhia em disputa direta com players já consolidados nessas rotas, como Latam, TAP, Air France, British Airways e American Airlines.
É uma decisão menos simbólica e mais orientada por dados de mercado.
Slots são sinal verde, mas não decolagem garantida
A obtenção de slots representa apenas uma autorização de janela operacional. Não é confirmação de voo.
Os pedidos estão válidos entre 1º de junho e 24 de outubro de 2026, coincidindo com o verão europeu e a alta demanda transatlântica. O recorte sazonal sugere uma estratégia de teste de mercado com risco controlado.
A empresa ainda pode revisar frequências, ajustar destinos ou até cancelar operações dependendo de frota, custos e cenário competitivo.
A330 entra na equação e quebra padrão histórico da frota
Um dos pontos mais relevantes é a provável introdução de widebodies. Os registros de slots indicam o Airbus A330-300 com cerca de 298 assentos, configuração típica de voos intercontinentais.
Além disso, o grupo Abra firmou leasing para cinco Airbus A330-900neo, com entregas previstas para 2026. Caso confirmados na operação, esses aviões marcariam a volta da Gol ao segmento de grande porte após cerca de 15 anos, quando operou Boeing 767 herdados da Varig.

A mudança representa uma quebra na histórica padronização exclusiva em Boeing 737.
Leasing, ACMI e flexibilidade operacional
Analistas do setor apontam que a Gol pode adotar contratos ACMI (Aircraft, Crew, Maintenance and Insurance), modelo em que aeronave, tripulação e suporte técnico vêm de terceiros.
Essa abordagem reduz risco financeiro e permite testar mercado antes de investimentos estruturais de longo prazo.

Nesse contexto, a espanhola Wamos Air, também ligada ao grupo Abra, surge como candidata natural para apoiar a operação.
Configuração de cabine pode definir percepção do produto
Nem todo A330 disponível no mercado possui layout ideal. Algumas aeronaves têm densidade acima de 400 passageiros em classe única — cenário pouco competitivo em voos de 10 a 12 horas.
Outras oferecem cerca de 260–270 assentos em três classes, padrão mais alinhado ao passageiro de longo curso.
Reconfigurações são possíveis, mas envolvem custo e tempo. Ainda assim, podem ser essenciais para preservar imagem e experiência de bordo.
Por que não o Boeing 787?
A resposta é pragmática: disponibilidade e custo.
O 787 tem demanda global elevada e baixa oferta no mercado de leasing. Introduzir o modelo também exigiria treinamento, certificações e nova estrutura operacional.
Para uma operação sazonal inicial, o A330 oferece implementação mais rápida e racional.
Lembrando que no ano de 2011, a GOL – que tinha os direitos da marca “Varig” – se interessou pela encomenda de 8 (oito) Boeings 787-8, o que se esperava ver a marca pioneira dos céus do Brasil, voando com a moderna aeronave da Boeing.

Operação sazonal é prática comum na indústria
Utilizar aeronaves maiores apenas em períodos de pico é prática consolidada na aviação mundial. Companhias europeias e sul-americanas fazem ajustes semelhantes conforme verão e inverno em cada hemisfério.
A lógica é simples: maximizar receita na alta demanda e reduzir exposição na baixa.
Se os resultados forem positivos, o projeto pode evoluir para algo mais permanente a partir de 2027.
Limitações e incertezas no radar
Nem tudo está definido.
- Heathrow enfrenta restrições de slots
- Lisboa ainda não comporta operação diária plena
- Modelos de aeronave podem ser ajustados
- Frequências e datas seguem sem confirmação oficial
Ou seja: há intenção clara, mas ainda não há produto final fechado.
Detalhes dos slots solicitados em Guarulhos (GRU)
| Destino | Voo | Rota | Frequência | Partida GRU | Chegada GRU |
|---|---|---|---|---|---|
| Lisboa | G38000 | GRU–LIS | Diário | 20h50 | — |
| Lisboa | G38001 | LIS–GRU | Diário | — | 19h40 |
| Londres | G38014 | GRU–LHR | Diário | 00h00 | — |
| Londres | G38015 | LHR–GRU | Diário | — | 5h10 |
| Roma | G38020 | GRU–FCO | Diário | 18h30 | — |
| Roma | G38021 | FCO–GRU | Diário | — | 19h30 |
| Paris | G38004 | GRU–CDG | Diário | 18h30 | — |
| Paris | G38005 | CDG–GRU | Diário | — | 19h15 |
| Miami | G38008 | GRU–MIA | Diário | 00h00 | — |
| Miami | G38009 | MIA–GRU | Diário | — | 4h55 |
| Orlando | G38006 | GRU–MCO | Diário | 10h05 | — |
| Orlando | G38007 | MCO–GRU | Diário | — | 5h10 |
Horários em hora local. Slots indicam possibilidade de operação, não confirmação.
Concorrência forte, mas presença estratégica
Competir com a Latam em escala global ainda é distante, mas presença internacional vai além de volume. Envolve marca, percepção de mercado e acesso a receitas dolarizadas.
Entrar nesse segmento é um passo relevante por si só.
Conclusão
Tudo indica que a Gol prepara um projeto piloto de longo curso. Se bem executado em produto, custo e regularidade, pode amadurecer para uma nova fase internacional.
Se não, será apenas uma operação oportunista de temporada.
O mercado agora aguarda abertura de vendas, definição de frota e posicionamento de produto. A resposta do passageiro dirá se estamos diante de um retorno estrutural ao longo curso ou apenas de um experimento calculado.

