
O LATAM Pass voltou a mexer em um dos pontos mais sensíveis do seu programa de fidelidade: a tabela fixa para emissões com companhias aéreas parceiras. A atualização já consta no site oficial do programa e passa a valer a partir de 2 de março de 2026, trazendo uma combinação nada animadora de aumentos expressivos, algumas reduções pontuais e, principalmente, mais um sinal claro de desgaste estrutural no modelo de resgates.
Não é a primeira vez — e dificilmente será a última. O movimento reforça uma tendência que quem acompanha o programa de perto já conhece bem: as tabelas fixas estão cada vez menos previsíveis e cada vez mais caras.
O que mudou na prática
De forma objetiva, o LATAM Pass revisou os valores de resgate em rotas operadas por companhias parceiras, com ajustes que chegam a 20% de aumento em diversos trechos. Em contrapartida, alguns poucos mercados registraram reduções relevantes, especialmente em Primeira Classe, o que pode confundir quem olha apenas o número final sem contexto.
Um ponto importante: os trechos envolvendo o Brasil não foram afetados nesta rodada. mas muitas rotas afetadas são usadas por usuários brasileiros. Todas as mudanças se concentram em rotas internacionais entre outras regiões do mundo.
As tabelas atualizadas já estão disponíveis na área de parceiros do LATAM Pass e passam a valer automaticamente para emissões realizadas a partir da data de vigência.
Primeira Classe: cortes pontuais e aumentos relevantes
Apesar de chamar atenção pela redução em algumas rotas, a Primeira Classe também sofreu aumentos significativos em mercados estratégicos. Veja os números organizados:
| Origem | Destino | Valor antigo (por trecho) | Novo valor (por trecho) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| América Central | Europa | 216.000 | 144.000 | -33,33% |
| América do Norte | Europa | 216.000 | 180.000 | -16,67% |
| Europa | América do Norte | 216.000 | 180.000 | -16,67% |
| América do Norte | Oceania | 180.000 | 216.000 | +20% |
| Oceania | América do Norte | 180.000 | 216.000 | +20% |
| Europa | África | 84.000 | 100.800 | +20% |
| África | Europa | 84.000 | 100.800 | +20% |
Aqui fica claro que o LATAM Pass ajustou distorções históricas em alguns trechos, mas também encareceu mercados onde a demanda por resgates premium é elevada.
Classe Executiva: aumento generalizado
Na Classe Executiva, o movimento foi bem menos sutil. Todos os trechos afetados registraram aumento direto de 20%, sem exceções:
| Origem | Destino | Valor antigo (por trecho) | Novo valor (por trecho) | Aumento |
| América do Norte | Europa | 135.000 | 162.000 | +20% |
| Europa | América do Norte | 135.000 | 162.000 | +20% |
| Oceania | América do Norte | 135.000 | 162.000 | +20% |
| Europa | África | 90.000 | 108.000 | +20% |
| África | Europa | 90.000 | 108.000 | +20% |
Para o usuário frequente do programa, essa mudança reduz de forma direta o poder de compra das milhas acumuladas, especialmente em resgates intercontinentais.
Classe Econômica: menos impacto absoluto, mesmo problema estrutural
Na Classe Econômica, os valores absolutos continuam menores, mas a lógica se repete: aumento linear de 20% nos trechos alterados.
| Origem | Destino | Valor antigo (por trecho) | Novo valor (por trecho) | Aumento |
| Europa | África | 36.000 | 43.200 | +20% |
| África | Europa | 36.000 | 43.200 | +20% |
| América do Norte | Europa | 36.000 | 43.200 | +20% |
| América do Norte | Oceania | 39.500 | 47.400 | +20% |
| Oceania | América do Norte | 39.500 | 47.400 | +20% |
Mesmo em econômica, o recado é claro: milhas estão sendo desvalorizadas de forma contínua.
O pano de fundo ignorado: o mercado paralelo de milhas
Existe um fator estrutural que raramente é tratado com a seriedade necessária: o comércio informal — e muitas vezes escancarado — de milhas no Brasil. Influenciadores, atravessadores e usuários comuns transformaram programas de fidelidade em um mercado quase clandestino, onde milhas são tratadas como moeda de troca sem qualquer compromisso com sustentabilidade.
Esse comportamento força as companhias aéreas a reagirem. Quando grandes volumes de milhas passam a ser utilizados por terceiros, em emissões que não refletem o relacionamento real com o programa, o sistema simplesmente deixa de fechar a conta.
O resultado é previsível:
- tabelas mais caras;
- menos disponibilidade;
- regras mais duras;
- benefícios reduzidos para quem usa o programa de forma legítima.
Não é coincidência que o Brasil seja um dos mercados onde programas de fidelidade mais sofreram desvalorizações nos últimos anos.
Influenciadores, desinformação e efeito cascata
Parte desse problema é amplificada por um conteúdo raso, mal contextualizado e muitas vezes irresponsável nas redes sociais. A lógica do “ganho rápido”, da venda de milhas e da exploração máxima do sistema é incentivada sem qualquer visão de longo prazo.
O efeito é coletivo e negativo. Quem perde não é apenas a companhia aérea — é o usuário final, que vê seus pontos valerem cada vez menos.
Conclusão: previsível, evitável e, ainda assim, recorrente
A nova alteração da tabela fixa do LATAM Pass não é uma surpresa. Ela é consequência direta de um ecossistema mal utilizado, pressionado por comportamentos oportunistas e por um mercado paralelo que distorce completamente a lógica dos programas de fidelidade.
Nem todo milheiro age assim, é verdade. Mas uma parcela relevante contribui para esse cenário, e o custo acaba sendo distribuído para todos.
Enquanto o foco continuar sendo extrair o máximo no curto prazo, sem compromisso com sustentabilidade, o resultado será sempre o mesmo: milhas mais caras, menos benefícios e regras cada vez mais restritivas.
E, infelizmente, isso já deixou de ser exceção para virar regra.

