
A Lufthansa atravessa um momento delicado na implementação de sua nova Classe Executiva. Apesar de já operar comercialmente seus Boeing 787-9 Dreamliner, a companhia alemã ainda não consegue disponibilizar a cabine Allegris em sua totalidade. Na prática, apenas quatro assentos executivos por voo estão liberados para venda.
O problema não está na aeronave, mas no processo regulatório envolvendo os novos assentos, que seguem sem certificação completa por parte das autoridades aeronáuticas.
Um projeto ambicioso, mas complexo
Apresentado como uma virada de chave na experiência a bordo, o conceito Allegris foi desenvolvido para modernizar todas as cabines da Lufthansa. O destaque ficou para a Classe Executiva, que finalmente passou a oferecer acesso direto ao corredor em todas as posições — um atraso histórico frente a concorrentes globais.
A estreia do produto ocorreu nos Airbus A350, mas desde o início ficou claro que a implementação não seria simples. Atrasos na cadeia de fornecimento e ajustes técnicos postergaram o uso pleno de todas as cabines, incluindo a Primeira Classe.
Os entraves aparecem no Dreamliner
O cenário se tornou ainda mais sensível com a chegada dos novos Boeing 787. A Lufthansa possui cerca de 15 aeronaves já entregues ou prontas para entrega, todas configuradas com o padrão Allegris. No entanto, a maior parte dos assentos da Classe Executiva segue sem autorização para uso.
A explicação passa por um fator pouco comum: a companhia decidiu adotar diferentes modelos de assentos dentro da mesma cabine, fabricados por empresas distintas. Cada versão exige um processo de homologação separado, inclusive para cada tipo de aeronave.
Por que só quatro assentos estão à venda?
Até agora, apenas um dos modelos de assento executivo recebeu sinal verde dos reguladores para uso no Boeing 787. Coincidentemente, ele equipa a primeira fileira da cabine, composta por quatro suítes.
Com isso, os demais assentos permanecem bloqueados, criando um cenário curioso: voos de longo curso com uma cabine executiva quase vazia, apesar da alta demanda histórica por esse produto.
Onde esses aviões estão operando
Mesmo com limitações, a Lufthansa optou por colocar os Dreamliners em serviço. Desde outubro de 2025, essas aeronaves passaram a operar rotas para destinos como:
- Rio de Janeiro
- Bogotá
- Austin
- Hyderabad
Em todos os casos, a venda da Classe Executiva segue restrita às quatro suítes certificadas.
Cronograma já foi revisto mais de uma vez
Inicialmente, a expectativa era concluir todo o processo de certificação até o fim de 2025. O prazo não se confirmou.
Posteriormente, a companhia passou a comercializar todos os assentos da Classe Executiva para voos a partir de maio de 2026, mantendo bloqueios até abril. Agora, esse plano também foi revisto: a liberação total ficou para julho de 2026.
Até lá, a Lufthansa continuará operando seus 787 com capacidade executiva severamente reduzida — e sem garantias de que o novo prazo será definitivo.
Decisões da pandemia ainda cobram seu preço
O CEO do grupo, Carsten Spohr, reconheceu que parte dos problemas atuais é reflexo das decisões tomadas durante a pandemia, quando a Lufthansa precisou cortar investimentos para preservar liquidez diante do risco de colapso financeiro.
Segundo ele, processos como certificação de cabine acabaram sendo impactados. Ainda assim, Spohr sustenta que a aposta em um produto próprio, mais sofisticado, tende a gerar maior retorno financeiro no longo prazo.
Um lançamento marcado por obstáculos
O caso dos Boeing 787 soma-se a outros episódios recentes do grupo Lufthansa. Antes disso, a companhia já havia atrasado a entrada em operação de A350 por questões semelhantes, enquanto a SWISS precisou realizar ajustes estruturais em suas aeronaves para acomodar o novo padrão de cabine.
O conjunto desses episódios expõe o grau de complexidade envolvido na renovação de frota e padronização de produto em companhias aéreas tradicionais.
Conclusão
A cabine Allegris representa um avanço real na proposta da Lufthansa, mas sua implementação tem sido marcada por atrasos, revisões de cronograma e soluções improvisadas. Operar aeronaves novas com apenas quatro assentos de Classe Executiva disponíveis é longe do ideal, especialmente em rotas de longo curso. Ainda assim, a companhia parece disposta a absorver o impacto no curto prazo para consolidar um produto mais competitivo no futuro. Julho de 2026 passa a ser o novo marco — resta saber se, desta vez, ele será cumprido.

